24.11.12

Hable con Ella (2002)

Fala com Ela, Pedro Almodóvar


Hable con Ella reflecte tanto a versatilidade de Almodóvar quanto a sua habilidade invulgar no tratamento de cenários e de ambientes, minimizados neste caso. Transparece uma exímia capacidade de evidenciar, em qualquer aspecto do filme, o seu propósito, o seu tema-base (o sub-texto é visível tanto num plano como numa cena inteira, cromaticamente delineados). Estamos, portanto, no universo do autor, exuberante como sempre, e perante uma obra que nos fala das semelhanças e da completa unidade que reside entre homens e mulheres. As diferenças fazem-se no carácter, na personalidade e não no género específico e (in)questionável. Falamos pois e acima de tudo em seres-humanos e na complexidade emotiva que daí advém.

Esta dualidade entre o masculino e o feminino é tema recorrente no cineasta. E embora ela seja evidente pelo assunto e pela  abordagem em si, acaba por nunca se demarcar. Bem pelo contrário, na medida em que verdadeiramente nunca existe, antes se desconstrói em estereótipos menos comuns. Ou seja, há como que uma diluição de agentes, que naturalmente se atraem entre si, de que resultam produtos desconhecidos e imprevisíveis, na sua essência semelhantes aos primeiros, mas libertos e desconstruídos das limitações e influências culturais. Na prática, e no filme, essa desconstrução surge na sensibilização do homem e numa certa virilidade e posição de poder que a mulher assume (na arena por exemplo). Contrabalançando de imediato os papéis que cada um presumivelmente assumiria na sociedade. Mais que trocar de lado, equilibra pré-disposições e questiona, insinua e confunde. Os lados baralham-se e toda e qualquer conceito pré-definido é subvertido, tendo logo à partida uma vantagem - a surpresa que pode advir de um argumento destes ou a fuga de narrativas estabelecidas à priori nas suas emoções, nas suas mensagens e no seu rumo, são enormes. Facto que se confirma, atendendo à constante variedade e ritmo alternados, bem como à volatilidade das acções praticadas.

Apesar desta dualidade explorada, o objecto de maior enfoque é o feminino (de resto como é habitual no realizador espanhol). Ás tantas quase como se a existência do elemento masculino no filme servisse apenas como pretexto e suporte à exploração do mente feminina, fértil em imaginação e mistério. Fantasiosa, tal qual os sonhos. A figura humana por excelência, por assim dizer, e logo o meio para atingir a compreensão, o entendimento da morte, a fragilidade e a dureza do tempo, ou o fim de tudo. O todo que não se esgota mas que converge para dentro, para o interior. Daí que o mais importante, no fim, seja o outro, o pólo actrativo, ou simplesmente as relações, e nunca qualquer exterioridade a isso. O cuidado diário e a obsessão por algo inanimado (em todas as cenas no hospital) é sinal disto mesmo, do poder que um Ser tem pelo outro ou da influência e dependência que surge, inadvertidamente, da sistemática e habitual convivência.


Argumento poderosíssimo, pois então, de uma fragrância e atrevimento igualmente soberanos. Mas a obra, tal como a vida, não se esgota a ela mesma, conflui e abrange outras áreas, outras artes - música, teatro e dança. Todas elas entrelaçadas no decorrer da narrativa, ora na sincronia do movimento, da dança (as personagens principais acabam por se relacionar todas umas com as outras, directa ou indirectamente), ora na entrega às emoções, elevadas com a banda sonora. Emoções estas um pouco dissonantes em Almodóvar, tendo em conta que são, na sua maioria, contidas, subtis e harmoniosas, excluindo nesse sentido um expectável ataque de nervos, que bem poderia ter ocorrido, não fosse estarmos num filme algo singular dentro do espectro Almodovariano.

Uma palavra especial para a montagem e para a realização, construídas à semelhança do argumento - imprevisíveis na sua forma e autênticas no seu conteúdo. Puras, e é de pureza que nos lembramos quando visualizamos o filme dentro do filme, o cinema mudo como alicerce na condução de ideias. Destaque ainda para o enquadramento geral de toda a película, que nos vai transportando pautada e desordenadamente para o desenlace final, sem nunca nos fazer esquecer do essencial, da parte humana intrínseca e por isso altamente atractiva. Um filme extraordinariamente belo, intenso e complexo, de tão simples que aparenta ser. 

"Nothing is simple. I'm a ballet mistress, and nothing is simple."
Katerina Bilova


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

2 comentários:

  1. Partilho da mesma interpretação. Este e MÁ EDUCAÇÃO são os meus preferidos do realizador (não vi os seus últimos 2 filmes e creio que me falta um lá para trás), talvez por serem os mais artísticos. Quais são os teus?

    Roberto Simões
    CINEROAD
    cineroad.blogspot.com

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  2. ROBERTO SIMÕES, Os meus preferidos do realizador são este, Má Educação e A Pele Onde Eu Vivo (a mim falta-me ver o último dele, tal como ainda alguns antigos, muito embora os principais, presumo, estejam todos vistos). Estamos, ao que parece, em sintonia :)

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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